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Pintura Descascando ou com Bolhas: Quando a Patologia Está na Superfície

  • Foto do escritor: Eduarda, da Pórtico
    Eduarda, da Pórtico
  • 26 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura


A pintura de uma edificação vai muito além da estética: ela representa uma camada de proteção contra intempéries, ação de agentes agressivos e degradação natural dos materiais de fachada e ambientes internos. Quando surgem bolhas, descascamentos ou manchas, há sinais claros de que algo está errado e quase sempre os problemas vão além da superfície. Este artigo propõe uma análise técnica aprofundada sobre os mecanismos de falha em sistemas de pintura, suas causas mais comuns e as estratégias preventivas e corretivas recomendadas na engenharia diagnóstica.


1. Sintomas de falhas em pinturas: o que observar


As manifestações patológicas em revestimentos de pintura se apresentam com diferentes morfologias, cada uma indicativa de falhas específicas no processo de execução, nos materiais utilizados ou em processos patológicos da própria edificação:


  • Bolhas (blistering): surgem quando há aprisionamento de ar, vapor de água ou solventes entre a película de tinta e a superfície. Indicativo de umidade interna ou reação química;

  • Descascamento (peeling): perda de aderência entre a tinta e o substrato ou entre camadas sucessivas de tinta. Ocorre por incompatibilidade de materiais, má preparação ou umidade ascendente;

  • Eflorescências: presença de manchas brancas na superfície indica migração de sais solúveis transportados por umidade capilar. Prejudica tanto a estética quanto a coesão da película;

  • Craquelamento: formação de pequenas fissuras ou trincas na película, decorrentes de envelhecimento precoce, aplicação espessa demais ou uso de tinta fora do prazo de validade;

  • Desagregação (chalking): esfarelamento da tinta, deixando resíduos de pó. Sinal típico de tintas inadequadas para o ambiente ou exposição prolongada aos raios UV.


2. Principais causas técnicas das falhas


2.1. Umidade interna e infiltrações

A umidade é a principal inimiga dos sistemas de pintura. Quando oriunda de infiltrações pluviais, capilaridade do solo ou condensação, compromete a aderência entre as camadas, gerando pressão de vapor e falhas como bolhas e descascamentos. É fundamental investigar as fontes:


  • Infiltração por coberturas, calhas ou rufos mal executados;

  • Umidade ascendente por falta de barreira impermeabilizante no embasamento;

  • Falta de estanqueidade em alvenarias e juntas mal vedadas;

  • Umidade por condensação em ambientes internos mal ventilados.


2.2. Preparação deficiente da base

  • Reboco com alto teor de umidade residual (cura insuficiente);

  • Presença de partículas soltas, poeira, graxa, bolor ou fungos;

  • Falta de seladores, fundo preparador ou lixamento adequado;

  • Aplicação sobre bases calcárias sem neutralização (ex: cal virgem).


2.3. Incompatibilidade entre sistemas de pintura

A utilização de produtos incompatíveis entre si ou com o substrato leva à perda de coesão da película. Exemplos:


  • Tinta PVA em ambientes externos (não resiste à radiação UV);

  • Uso de tinta esmalte sintético sobre base acrílica sem preparação;

  • Mistura inadequada entre tintas à base de solvente e água;

  • Aplicação de tinta nova sobre tinta envelhecida e pulverulenta.


2.4. Erros na execução e no processo de aplicação

  • Diluição além do recomendado pelo fabricante;

  • Aplicação sob sol intenso, vento forte ou alta umidade relativa do ar;

  • Intervalos incorretos entre demãos, comprometendo a secagem;

  • Espessura inadequada de camada (muito fina ou muito espessa).


3. Diagnóstico técnico de falhas


Antes de qualquer correção, é essencial realizar uma investigação técnica qualificada. O diagnóstico pode envolver:


  • Ensaio de aderência por tração (pull-off test);

  • Medição de umidade com higrômetro de contato ou por microperfuração;

  • Análise microscópica das camadas (microscópio portátil ou corte estratigráfico);

  • Teste com fenolftaleína para presença de cal livre na base;

  • Verificação de compatibilidade química entre substrato e tintas utilizadas.


4. Boas práticas para evitar patologias em pintura


4.1. Em fase de projeto e especificação

  • Escolher sistemas de pintura adequados ao ambiente (interno, externo, áreas úmidas);

  • Compatibilizar os materiais com o tipo de substrato (reboco, concreto, drywall);

  • Prever prazos adequados de cura dos revestimentos antes da pintura;

  • Incluir seladores e fundos preparadores no escopo da pintura.


4.2. Em fase de execução

  • Realizar limpeza profunda e preparação da superfície (lixamento, escovação);

  • Testar absorção da base (verificar se a água é absorvida em até 30 segundos);

  • Aplicar produtos conforme especificações técnicas do fabricante;

  • Evitar aplicação em dias com umidade relativa acima de 85% ou temperatura abaixo de 10°C;

  • Treinar a equipe de pintura com foco em controle de qualidade.


4.3. Manutenção preventiva

  • Inspeções periódicas para identificação precoce de bolhas, descascamentos e manchas;

  • Lavagem semestral de fachadas para remoção de fungos e poluentes;

  • Reaplicação de tinta a cada 5 a 7 anos, dependendo da exposição e tipo de produto.


5. Estratégias corretivas eficazes


Quando os sintomas já estão instalados, a correção exige atenção técnica e etapas específicas:


  1. Remoção total da pintura degradada, com lixamento ou decapagem química;

  2. Correção da origem do problema, especialmente fontes de umidade;

  3. Regularização da base, incluindo selagem, aplicação de fundo e nivelamento;

  4. Aplicação de nova pintura, com produtos tecnicamente compatíveis, em camadas e condições adequadas.


É importante lembrar que a repintura sem correção da causa da falha tende a gerar recidivas em curto prazo.


Conclusão


Patologias em pinturas não devem ser tratadas como meras imperfeições visuais. Elas indicam falhas construtivas, materiais inadequados ou processos executivos deficientes. Um olhar técnico, fundamentado em normas, ensaios e boas práticas, é essencial para preservar o desempenho estético e funcional da edificação. A pintura é o último revestimento, mas depende da solidez de todas as camadas anteriores inclusive do cuidado com a engenharia.

 
 
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